23.3.07

Prólogo - Parte 07

Once Upon a Time in New Mexico 07/10




Nunca em sua vida, Klaus havia vivenciado uma experiência tão extraordinária como a daquela noite. Foi como se o mundo real por alguns instantes abaixasse as suas cortinas, para finalmente revelar a ele, uma realidade que até então lhe fora negada.

Sobre o palco, enquanto cantava “In The Claws of Fenrir”, a mágica que ele sempre descrevia em suas canções, realmente aconteceu, por mais incrível que isso possa parecer. Era mais do que uma alucinação, mais do que o delírio de um homem longe de estar sóbrio...

Embora assustado, ele pode ver nitidamente a profusão dos feixes de luz, que se dispersavam em todos os sentidos a partir dos grandes holofotes, mais não de uma forma normal, de uma maneira vibrante, palpável e literalmente viva. Ao se chocarem em qualquer pessoa ou objeto, elas produziam uma pequena e magnífica explosão de cores, que gerava dezenas de pontos de luz, de diversas cores e intensidades, que passavam a cair, rodopiar e piscar como se tivessem vida própria.

Debaixo das mesas ou em qualquer lugar com pouca iluminação, as sombras pareciam se mover de maneira sorrateira. Mostravam-se nitidamente incomodadas por aquela claridade. Elas permaneciam a espreita, esperando o momento certo para atacar os pequenos pontos iluminados, e a medida em que estes se aproximavam do chão, eram devorados de forma feroz e impiedosa por uma imensa onda de escuridão...

Klaus ainda confuso pelo que acabara de testemunhar, esfregava seus olhos persistentemente tentando de alguma forma despertar desse “pesadelo surreal”...

Mas ao abri-los novamente, ainda podia observar tudo ao seu redor intensamente vivo e pulsante. Desde os cabos de energia, que contraiam e expandiam como se estivessem bombeando “litros e litros” de eletricidade para alimentar toda aquela “cadeia faminta” de eletroeletrônicos, até o som das notas musicais que saiam dos enormes amplificadores, as quais inacreditavelmente, pareciam tomar por alguns instantes, a forma material do que era cantado por ele, como um verdadeiro teatro em terceira dimensão que passeava por cima da multidão enlouquecida e segundos depois, desapareciam diante de seus olhos, da mesma forma misteriosa da qual tiveram origem.

Embora o contexto e a lógica gritassem em sua mente, que tudo aquilo não passava do efeito colateral de muita bebida misturada a provavelmente algum alucinógeno que poderiam ter dado a ele antes da apresentação, algo dentro dele contradizia veementemente e de uma forma inexplicável, lhe dava a certeza absoluta de que tudo aquilo era real. Era um sentimento que de uma forma amena o confortava naquela situação, mas mesmo assim, não era o suficiente para deixa-lo menos estarrecido com tudo aquilo.

O ápice das visões aconteceu quando a plenos pulmões ele repetiu o refrão de sua canção. A caixa acústica estremeceu intensamente, como se um terremoto estivesse ali preso e quisesse sair lá de dentro. Klaus recuou temeroso e aos poucos viu surgir dela um gigantesco lobo, de olhos vermelhos intensos, que pareciam arder num mar de fúria descontrolada. Por mais que ele se negasse a acreditar, parecia ser o próprio lobo Fenris das antigas lendas, se materializando bem ali na sua frente.

Ollendorf o encarou num misto de curiosidade e espanto e esperou que assim como os outros elementos da canção ele também desaparecesse, mas diferentemente deles, Fenris não se dispersou. Pelo contrário, a cada instante ele parecia maior e cada vez mais real, graças ao coro de vozes entoando seu nome nos versos, os quais pareciam ir aos poucos o idealizando, como se o imaginário coletivo estivesse se unindo para conceber a fera mítica...

Aos poucos o monstro asgardiano ficou maior, mais forte, denso. Sobre as quatro patas, o grande lobo cinza encarava-o com seus enormes olhos cor de sangue, enquanto rosnava mostrando seus afiadíssimos dentes e de pelos eriçados, caminhava assustadoramente em sua direção.

Klaus boquiaberto pode apenas observar passivo a fera se aproximar ate a distancia de um salto e então quando nada mais parecia o abalar, o lobo o surpreendeu vociferando numa língua perdida, a qual ele jamais ouviu, mas ao mesmo tempo lhe soou nitidamente familiar:

- ASSASSINO!!! Dizia ele furioso, ASSASSINO!!! Repetiu mais uma vez

Antes mesmo que Klaus pudesse compreender completamente o significado de suas palavras, o monstro saltou impiedosamente em sua direção para um ataque o qual não haveria escapatória...

Ao invés do impacto dos dentes afiados, um assalto de odores, sons, texturas, sabores e cores o invadiu e fez com que Klaus perdesse o controle de suas funções motoras. Uma enorme vertigem o atingiu. Ele não conseguiu se conter e seu corpo em resposta a tantos estímulos o fez regurgitar. Ainda zonzo, ele sentiu seu pés sendo puxados e suas costas batendo contra o chão. Desesperado e sem saber exatamente o que o havia derrubado, instintivamente ele tentou se defender com o suporte do microfone que ainda estava em suas mãos. Com o que restava se suas forças ele lançou o objeto de metal na direção em que parecia ter sido atacado e então desabou aparentemente inconsiente no chão.

Suas vistas escureceram, um silêncio sepulcral envolveu o ambiente. Ele parecia não estar mais ali...

“Flashes” de momentos passados, acontecimentos ainda não vividos por ele, elementos de um possível futuro, tudo muito rápido, tudo muito intenso, tudo ao mesmo tempo. Aos poucos, a velocidade das informações foram diminuindo e ele se viu de uma forma onírica em um terreno árido onde haviam cinco lobos cercando outros dois, como em um sonho confuso e desconexo, os céus rapidamente escureceram e uma terrível tempestade fez com que a matilha fugisse, deixando apenas os outros dois lobos que estavam sob ataque, sozinhos a mercê do grande tornado que se anunciava no horizonte. Quando tudo parecia perdido para ambos, uma ínfima faísca surgiu da terra e gerou uma pequena chama que não se extinguia, mesmo em meio aos fortes ventos, ela começou a crescer, até se transformar numa imensa bola de fogo que ascendeu aos céus tomando o lugar do sol, dispensando as trevas e iluminando todo o ambiente...

Então novamente tudo escureceu e somente então sua consciência pareceu ir retornando aos pouco. Gritos e sons de uma imensa confusão invadiram seus ouvidos, a medida em que o tempo passava, eles iam se tornando mais nítidos. Vidros se quebrando, homens discutindo, um verdadeiro caos parecia ter dominado o ambiente. Seria essa outra alucinação?

Infelizmente não...

Ollendorf tremia, seu coração estava acelerado e sua mente completamente desorientada por um medo primitivo. Ele não sabia o que estava acontecendo naquele lugar e muito menos o que havia acontecido com ele àquela noite. Vagarosamente abriu os olhos, sua visão ainda estava turva. Pânico, correria e violência... foi isso que ele testemunhou. Imediatamente ele tentou se levantar, mas não conseguiu. Temendo por sua segurança, arrastou-se buscando encontrar abrigo além da cortina negra atrás do palco. No caminho, ele pode observar o lobo etéreo que o havia atacado se desmaterializando, uma vez que a multidão havia se dispersado, ele pareceu ter perdido suas forças e desapareceu como os outros elementos da música.

Oculto aos olhos da multidão atrás do pano escuro, ele pode enfim se deitar esperando a tontura passar. Permaneceu ali, encolhido e inerte por alguns minutos como se estivesse em estado de choque.
Mas sua paz momentânea foi violada abruptamente ao sentir um duro chute em suas costelas, que o arremessou contra a aparelhagem de som nos bastidores. Exaurido, conseguiu apenas levantar seu rosto para ver o que havia lhe acertado e viu um jovem desconhecido de cabelos loiros, na altura dos ombros, encarando-o de cima com um considerável pedaço de madeira na mão direita. Ele quis chorar mais as lagrimas não vinham, ele sabia o que iria acontecer, mais não entendia o porque. Antes de golpeá-lo violentamente nas costas, o rapaz disse algo como – “Você vai ter o que merece bacalhau!” - Com todas as forças ele tentou gritar por ajuda, mais apenas um som parecido com um uivo agudo ecoou de sua garganta. Encurralado ele arrastou-se mais uma vez buscando escapar do rapaz, mais com outro chute ele foi contido, desabando perto da pequena janela onde a luz da lua minguante iluminava o ambiente. Seu algoz ainda gargalhava alto por ouvi-lo “imitar um cachorro” enquanto apanhava.

Nunca em sua vida ele se sentiu tão confuso, impotente, humilhado, revoltado e anormalmente furioso. Esse misto de emoções foi o agente catalisador da coisa mais inacreditável que aconteceria naquela noite. Seu corpo começou a arder como se ele tivesse sido lançado dentro de um vulcão. Seu coração passou a martelar seu peito como se fosse explodir. Era como se um mar revolto de fogo o lavasse por dentro, desde o âmago do seu ser, ate seus poros. Ele sentia essa fúria explosiva fluindo e o dominando. Sua pele rasgou de dentro para fora, seus dentes cresceram e se amontoaram em sua enorme mandíbula, as suas roupas ficaram pequenas para seus músculos e se partiram como se fossem de papel. Completamente transformado numa criatura gigantesca e horrenda, híbrida entre homem e lobo, Ollendorf emitiu um som gutural o qual aquele jovem jamais havia imaginado ouvir em toda sua vida, nem mesmo na melhor e na mais ameaçadora produção holywoodiana, com a ajuda de toda tecnologia de efeitos especiais que o dinheiro pode comprar, seria possível reproduzir o terror de se ver e ouvir aquilo...

Provavelmente ninguém no mundo seria capaz de descrever o pavor deste rapaz ao presenciar a transformação de um verdadeiro lobisomem; os ossos estralando, a carne sendo moldada,
a massa muscular triplicando e sendo coberta por uma densa pelagem, os espasmos de dor, as garras rasgando o chão produzindo um agudo e estridente barulho no chão, arrepiando todos os seus pelos e por fim, o desesperador som do poderoso uivo em um tom inumano, soando quase como um trovão ecoando em seus ouvidos...

Absolutamente ninguém no mundo conseguia expressar em mais do que duas palavras o pavor de estar frente a frente com uma verdadeira maquina de guerra viva e sem controle, urrando, babando e vindo em sua direção...

E o pior de tudo...

É praticamente impossível imaginar a decepcionante sensação de que de todas as pessoas do mundo e de todos os lugares que você poderia estar numa bela noite de sexta-feira, justamente você, é o cara que esta ali, no lugar errado e na hora errada e foi o grande azarado que cruzou o caminho da "morte sobre quatro patas num dia ruim" e ela esta ali, diante dos seus olhos, prontinha para cumprir em você o seu papel nessa terra:

Destruir...



Nota do Autor: Bem pessoal, a partir deste post, vou inaugurar essa sessão de notas que trará informações explicativas referentes ao jogo o qual este conto é baseado. Muitos leitores não conhecem a fundo o novo cenário, sistema de regras e alguns termos do jogo. Por isso, sempre que se fizer necessário, colocarei junto ao texto uma nota como esta contendo informaçoes tanto para auxilia-los a entender melhor a historia, como para aqueles que esperam ansiosamente pelo lançamento do livro em portugues possam ir conhecendo passo a passo um pouco mais do werewolf the forsaken...

A nota de hoje vem revisar o post acima a fim de desmistifica-lo em termos mais simples. Klaus, assim como Steve, é um Uratha, que na primeira língua seria o proporcional para nos a: lobisomens.

Cada uratha possui um auspício, que representa uma das cinco faces do Lobo Primordial e indicará sua responsabilidade e dever dentro de sua matilha. Sempre que um uratha sofre a "Primeira Mudança" esse momento não fica marcado apenas pelo momento de transformação terrível, mas pelo breve momento de comunhão com o coro lunar relacionado à atual fase da lua que é indicado pela lua a qual ele sofreu a sua primeira transformação. Assim como as faces do Pai Lobo e as fases da lua eles são cinco:


Rahu - O Guerreiro - Lua Cheia (Full Moon)
Cahalith - O Visionário - Lua Minguante (Gibbous Moon)
Elodoth - O Juiz do Equilíbrio - Meia Lua (Quarter Moon)
Ithaeur - O Mestre Espiritual - Lua Crescente (Crescent Moon)
Irraka - O Caçador - Lua Nova (New Moon)

Como pode ser visto, Klaus é um Cahalith, pois teve sua primeira transformação sob a benção da lua minguante e o presente de Luna para todos desse auspício é a visão. A primeira mudança para aqueles nascidos sob essa lua geralmente envolve visões do imaterial - parte alucinação, parte visões do mundo espiritual (Como aconteceu com Øllendorf nesse Capítulo). Estas visões podem ser demais para um jovem e inexperiente uratha devido aos muitos estimulos sensoriais que elas infligem, sendo mais do que suficientes para fazê-los perder o controle. Por conta disso, frequentemente, o Cahalith é levado a uivar alta e longamente numa tentativa de expressar seu medo, confusão e alegria - o que pode fazer outros lobisomens encontrá-lo mais facilmente.

Renome primário do Auspício - Glória.

Especialidades - Oficios, Expressão e Persuasão.

Lista de Dons - Lua Minguante, Inspiração e Conhecimento.

Habilidade de Auspício - Sonhos Proféticos. Uma vez por estória, o jogador pode pedir ao narrador uma profecia em seu sono, fornecendo assim alguma pista sobre o que desafiará o Cahalith. O sonho é sempre velado em simbolismo, o qual o jogador deve interpretar. O Cahalith também recebe um dado em qualquer teste de Occult feito para interpretar profecias ou resolver enigmas.

Quota - "Ergam suas vozes! Rasguem o céu! Uivem sua raiva, seu desespero, sua dor e sua esperança! Cantem para Mãe Luna, e que ela saiba que seus filhos ainda são fortes!"

2 comentários:

Eduardo disse...

Po, acho soh que esta faltando um post com os detalhes de cada membro da matilha. O que acham?
FLW!

Pride disse...

Será providenciado... =)

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